PUBLICAÇÕES

LIVRO DETERMINAÇÃO | 1999

A Biblia como Fonte de Inspiração Artística

A obra de Dagoberto Silva, que eu conheço, demonstra uma personalidade de fina sensibilidade e equilíbrio, na área da criação artística. Os seus quadros são suaves e serenos. Brotam de uma alma que contempla a sua própria reacção estética perante as realidades. E o que sai dessa contemplação acusa esmero, contenção expressiva e humildade.

Nos quadros de Dagoberto não se detecta nem a chispa arbitrária nem a ousadia postiça. Pelo contrário, com uma inteligente e muito bem adquirida relação das cores, eles conduzem-nos ao reino do místico e do religioso, de forma diluída mas real.

A minha reacção à arte de Dagoberto leva-me a fazer-lhe um desafio:

Porque não se encoraja a estudar a Bíblia, na sua riquíssima Simbólica?

Cónego Doutor António Ferreira dos Santos | Director da Escola das Artes da Universidade Católica – C.R.P. | Reitor da Igreja da Lapa – Porto

The Bible as a Source of Artistic Inspiration

The work of Dagoberto Silva that I know shows a personality with a refined sensibility and balance in his art. His paintings are calm and serene. They spring from a spirit which can observe its own response to reality. From this contemplation comes his fine sense of detail, restraint and humility.

On the paintings of Dagoberto one does not encounter a chaotic inspiration or an aggressive boldness. On the contrary, through an intelligent and highly skilful use of colour, they lead us into the realm of the mystical and religious, understated but nevertheless real.

My reaction to the art of Dagoberto encourages me to issue this challenge to him:

Why not pursue the study of the rich symbolism of the Bible?

Canon Doctor António Ferreira dos Santos | Dean of school of Arts, Catholic University – Oporto Centre Rector, Church of lapa – Oporto

LIVRO OLHARES MEUS | 2004 

A IMPRESSÃO DIGITAL DE DAGOBERTO

Jackson Pollock dizia que um bom pintor pinta aquilo que ele próprio é. Esta frase está saturada de semiologia e provoca uma inevitável reflexão sobre o conceito de Arte. As palavras do pintor Norte-Americano podem inspirar simpatia, pela sua perspicácia; ou rejeição, por serem demasiado simplistas ou generalistas.

Mas estou convencido de que Dagoberto pinta aquilo que ele é. E como tenho Dagoberto por um bom pintor, a indução lógica leva-me a concluir que a frase de Pollock está perfeitamente correta. Há uma vertiginosa franqueza e candura nas telas de Dagoberto. Alguns dos seus traços denunciam de forma transparente o seu olhar. Mesmo nas paisagens ou nos rostos mais estranhos, há uma familiaridade de traços que nos remete para o autor. Como se o autor fizesse parte daquela paisagem ou daquele rosto retratados.

Os estudiosos da interpretação e da retórica, no século XIX, falavam do “círculo hermenêutico” para explicar a complexa relação entre o autor e a obra. O conceito é um fascinante exercício mental para explicar o inexplicável: como é que o autor e a obra se implicam mutuamente e não podem ser descobertos isoladamente.

Mas esta ideia difícil fica mais simples de cada vez que olho uma tela de Dagoberto. Aí, as teses dos filólogos tornam-se subitamente claras: como é possível entender a simplicidade do olhar de um rosto por si retratado sem saber a lucidez de Dagoberto?

O “círculo hermenêutico” fecha-se sobre si próprio quando realmente fruímos da Arte de Dagoberto.

As telas ganham vida própria e os sentidos que elas proporcionam anulam qualquer tentativa de comprometimento interpretativo que não seja aquele que transparece da análise que podemos fazer do seu próprio autor.

Dagoberto só pode pintar aquilo que ele próprio é porque se descobriu a si mesmo. A sua pintura tem alma – a sua alma. Em cada tela, ele deixa a sua impressão digital, que não pode ser reproduzida, nem imitada. Porque é autêntica. E a autenticidade é, talvez, a mais profunda qualidade de Dagoberto.

Prof. Doutor Ricardo Jorge Pinto